Pinheirinho: mais um episódio de violência do Estado contra o povo

Durante a semana passada, os jornais e televisões registraram um chamado ‘exército’ trajado com capacetes automobilísticos, escudos feitos com tambores de plástico, caneleiras de PVC, bastões de madeira e pronto para defender um pedaço de chão de 1,3 milhão de metros quadrados no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, onde vivem 1.600 famílias, cerca de sete mil pessoas, desde 2004.

Com a falta de graça habitual, alguns veículos alcunharam este exército como o de Brancaleone, em referência ao filme de comédia dirigido por Mário Monicelli (O Exército de Brancaleone, Itália, 1965) e que conta a história de um cavaleiro medieval atrapalhado que organiza um exército errante de maltrapilhos e desocupados inofensivos. De cômico o grupo de moradores de Pinheirinho não tem nada, tampouco a razão que o levou a se organizar para a resistência. 

A opinião pública tratou nessa toada mais um episódio de violência e barbárie descomunal visto durante este último final de semana, quando a Polícia Militar do Estado de São Paulo mais uma vez serviu aos instintos racistas do tucanato paulista e com dois helicópteros, carros blindados e dois mil soldados do Batalhão de Choque atacaram a comunidade sem distinguir crianças, mulheres e idosos. Por que tal desocupação ser realizada num sábado e domingo, posto que a ocupação é antiga? Por que lançar na rua famílias que não têm teto, enquanto na ocupação conseguiam viver com o mínimo de dignidade?

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) vem a público manifestar apoio e solidariedade às famílias desalojadas e um veemente repúdio ao episódio. Entendemos que está em curso no país um grande processo de ‘limpeza social’, afetando toda e qualquer população que busque alternativas diferenciadas da imposta pela especulação imobiliária nos centros urbanos, e dos projetos de desenvolvimento que marcham para o campo e florestas.

Conforme dados noticiados, mais de 30 integrantes da comunidade foram detidos – fora os feridos com gravidade. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Naji Nahas, empresário dono da área de ocupação no Pinheirinho, segue impune depois de praticar crimes financeiros – lesando a nação – e ser descoberto pela Operação Satiagraha, deflagrada pela Polícia Federal em 2008. Por que a Justiça usa pesos e medidas diferentes quando legisla de forma desigual, beneficiando a elite corrupta brasileira?

Dessa forma, é possível questionar também a legalidade da ação, posto que estava em curso processo de negociação envolvendo atores federais. Além disso, havia conflito de competência. Dessa maneira, a Justiça Estadual deveria ter suspendido a ordem dada, mesmo porque existia um pedido da Justiça Federal. Afora que acima do interesse particular, pois o terreno não é público, apesar de abandonado e reivindicado por uma massa falida, está a dignidade humana – destroçada por cassetetes, balas de borracha e truculência do órgão repressor do Estado, a PM.   

O governador Geraldo Alckmin e seus aliados representam de forma destacada a excrescência da política nacional. Fazem parte de uma ralé covarde, burra, militarista e que encontra no racismo uma prática de governo para atender aos interesses da elite branca, encastelada em bairros nobres com as pompas furibundas que só a mediocridade cruel típica. Alckmin tinha o dever de não permitir que a violência ocorresse, mas os últimos fatos indicam – repressão na Universidade de São Paulo (USP) e ação no bairro da Luz – como age o governador, picolé de chuchu da elite paulistana.

Enquanto Alckmin pratica seu racismo, mais de 5,5 milhões de moradias precisam ser construídas para acabar com o déficit habitacional no Brasil, segundo dados do Ministério das Cidades. As favelas e áreas em situação de risco abrigam 7 milhões de pessoas – esse número aumentou 42% nos últimos 15 anos, segundo análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

O episódio de violência que atingiu os moradores de Pinheirinho acontece em todo país. Seja com os desalojados pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), marca do governo federal que não perdeu a oportunidade de mandar seus representantes para Pinheirinho, com os quilombolas, com os indígenas – caso das desocupações recentes das retomadas Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, e Pataxó Hã-Hã-Hãe, na Bahia – ou com os sem-terra.

CIMI

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