A COPA DO MUNDO JÁ TEM SEUS PERDEDORES

A grande euforia pela escolha do Brasil como sede da Copa 2014 não tardou muito em gerar desilusão. Logo apareceu o incômodo problema de quem iria pagar a conta. E veio a resposta, ainda mais incômoda, de que 98,5% do gordo orçamento do evento serão financiados com dinheiro público, segundo estudo do TCU. Dinheiro que faz falta no SUS, na educação ou na habitação popular. Por sua vez, a FIFA impõe contratos milionários com patrocinadores privados e o presidente do todo-poderoso Comitê Local é ninguém menos que Ricardo Teixeira. A transparência dos gastos está em xeque.

Estes temas têm sido amplamente tratados pela grande imprensa. Mas há outra dimensão do problema – não menos grave – que tem sido pouco abordada. Trata-se das consequências excludentes dos investimentos da Copa nas 12 cidades que a abrigarão. Três anos antes da bola rolar, esta Copa já definiu os perdedores. E serão muitos, centenas de milhares de pessoas afetadas direta ou indiretamente pelas obras.

Somente com despejos e remoções forçadas já há uma estimativa inicial de 70 mil famílias afetadas, segundo dossiê de março deste ano produzido pela Relatora da ONU e urbanista Raquel Rolnik. Os números podem chegar a ser bem maiores. Talvez por isso estejam sendo tratados pelo Governo como uma caixa-preta.

A desinformação facilita que qualquer processo de remoção receba o carimbo da Copa e, deste modo, seja conduzido em regime de urgência e passando por cima dos direitos mais elementares. Na maioria dos casos não há qualquer alternativa para as famílias despejadas. Quando há, são jogadas em conjuntos habitacionais de regiões mais periféricas, com infraestrutura precária e ausência de serviços públicos.

Quem sorri de orelha a orelha é o capital imobiliário. As grandes empreiteiras e os especuladores de terra urbana se impõem como os grandes vitoriosos. Levantamento do Creci-SP mostra que em 2010 houve uma valorização de até 187% de imóveis usados em São Paulo; a rentabilidade do investimento imobiliário superou a maior parte das aplicações financeiras. Para este segmento a Copa é um grande negócio. O exemplo de Itaquera não deixa dúvidas: os preços de compra e aluguel dos imóveis dobraram após o anúncio da construção do estádio. A conta costuma ficar para os mais pobres.

Isso quando não se paga com a liberdade ou a vida. Na África do Sul, durante a Copa 2010, foi criada por exigência da FIFA uma legislação de exceção, com tribunais sumários para julgar e condenar qualquer transgressão. O Pan do Rio foi precedido de um massacre no Morro do Alemão, com 19 mortos pela polícia. Despejos arbitrários, manter os favelados na favela e repressão exemplar aos transgressores, eis a receita para os mega-eventos. Receita que mistura perversamente lucros exorbitantes, gastos públicos escusos e exclusão social.

Guilherme Boulos, membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), militante da Frente de Resistência Urbana e da CSP Conlutas.

Texto adaptado publicado na Folha de S. Paulo do dia 23.12.2011.

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