Não invadi. Só entrei, ocupei e legitimei. – Estudantes universitários ocupam casa de estudante.

Ensino superior de qualidade e no lado de casa. Foi movido por isso, que fiz minha inscrição para o novo campus da UFSM, ainda em processo de implantação, em meados de 2009, num centro de ensino chamado CESNORS (Centro de Educação Superior Norte RS), localizado na cidade do norte do estado em Frederico Westphalen, junto a sede do tradicional CAFW (Colégio Agrícola de Frederico Westphalen), instituição vinculada a UFSM. Outra coisa que me motivou foi a construção da casa do estudante, para receber os acadêmicos com vulnerabilidade social. Ingressei na UFSM. 2010 passou, e nada. 2011 veio (a casa vai ficar pronta logo!), não. Não ficou. No fim deste ano, as obras finalmente são concluídas e o processo seletivo para a casa teve início. Fui selecionado (OBAAAA). Mas não abriram a casa. E ninguém tinha notícia de quando iria abrir. Porque não abrem? Ela já está pronta! Enquanto isso, mesmo com o direito de assistência estudantil garantido pelo PNAES e pelas próprias normativas da UFSM, eu e vários outros acadêmicos continuávamos sendo ignorados pela instituição, e tendo nossos direitos abafados, alguns por 1, 2, 3, 4 anos…outros ficaram toda a graduação na expectativa, mas nada. Ficou só no almoço por 50 centavos no RU mesmo. O ano de 2011 chegava ao fim, e mais uma vez a assistência estudantil no CESNORS era deixada de lado. Mas se a casa é do estudante, então…

…então, sentimos a necessidade de nos organizar mais uma vez, mesmo no conturbado período de avaliações finais da UFSM, sim, o famoso e temível #FimDeSemestreUFSM, e em meio a esse tumulto, vimos que não poderíamos nos calar e baixar a cabeça para a PRAE (Pró-reitoria de Assuntos Estudantis), e tendo a consciência de que a casa do estudante, um bem público, como o próprio nome já diz, é nossa, de todos os estudantes, de toda a sociedade que entrar na UFSM e dela necessitar, para não precisarmos pagar aluguéis nas férias e ser submetido a renovação de contrato com imobiliárias na cidade, e em seguida com o rompimento do contrato e pagamento de multas bem salgadas, resolvemos, em assembleia com os futuros moradores da casa que encontramos nesses últimos dias do semestre, Ocupar a nossa nova moradia, alguns meses antes do previsto. Ocupar uma CEU, como vamos fazer isso? Foi um dos primeiros questionamentos que surgiram. Arrombar a porta de entrada? E como isso vai soar lá fora, na mídia? E as chaves dos apartamentos? Essa foi fácil, já sabíamos que estavam em cada uma das portas. O empecilho mesmo, era a porta central de entrada…Mas ela estava aberta! Alguém não chaveou direito.
Sexta-feira, 16 de dezembro de 2011, 17 horas. Esse foi o horário combinado, e reunidos no hall de entrada do CESNORS, seguimos numa caminhada em direção a casa, e entramos. Mesmo que eu quisesse descrever por meio desse relato a sensação que eu tive, eu não conseguiria, um misto de “Poxa, até que enfim vo mora na casa”, “mãe, não vai mais faltar dinheiro”, “quanta gente vai poder morar aqui e ter condições de estudar”, “Toma PRAE (pra não usar outra expressão mais pesada…)”, “essa casa já nasce com autonomia” e mais zilhões de coisas que me passavam na cabeça referente ao movimento estudantil, das lutas que travamos desde o momento que eu comecei a participar, e de tantas outras que foram travadas antes de eu sequer sonhar em estar na UFSM, dos estudantes que começaram a se organizar em pleno período da ditadura militar para garantir seus direitos, das mulheres que solicitaram ter o direito de morar nas casas de estudante também, e de toda a estrutura que a UFSM dispõe para receber os estudantes em suas moradias, em grande parte fruto da luta dos estudantes que construíram a história da universidade através do Movimento Estudantil.

E agora, nós, os primeiros moradores da CEU IV, sim, decidimos chamá-la dessa forma. Casa do Estudante Universitário IV, em alusão a CEU I no centro de Santa Maria, CEU II no campus em Santa Maria e CEU III da pós-graduação. Tudo foi muito tranquilo. Assim que entramos, retiramos as chaves dos apartamentos e colocamos em uma sacola plástica, para realizarmos os sorteios dos apartamentos das duplas, estas que poderiam ser escolhidas conforme o grau de amizade e o interesse de cada um, respeitando assim aos moradores que não estavam presentes. Os seguranças não mostraram reação, o responsável pelo patrimônio veio conversar com nós, pedindo que esperássemos até a terça-feira seguinte para saber o posicionamento da UFSM. Nada feito, daqui não saio, daqui ninguém me tira, aluguel nem mais um dia! Continuamos lá, e logo vieram os colchões, e as primeiras mudanças dos moradores. O clima era o melhor possível, um sentimento de união e de direito legitimado. No dia seguinte até no noticiário local aparecemos. Com todo o rebuliço causado, a PRAE resolveu marcar uma reunião com os moradores. “porque vocês ocuparam?” parece bastante idiota, mas essa foi a primeira pergunta que nos foi feita. Óra porque?! Não vou nem comentar! Não tinha como calarem nosso direito, e mesmo que tentassem, sabiam que iriam comprar uma briga, e das grandes! Conseguimos a liberação oficial da CEU IV, e também a da CEU V no outro campus da UFSM, em Palmeira das Missões.

O ano fecha com chave de ouro no movimento estudantil em Frederico Westphalen. A ocupação organizada não somente por moradores, mas também pelo DCE ( Diretório Central de Estudantes), DAEF ( Diretório Acadêmico de Engenharia Florestal), DAEA (Diretório Acadêmico de Engenharia Ambiental), ABEEF (Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal) e FEAB ( Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil) só prova mais uma vez que quando o diálogo não resolve nada, é necessário partir para a ação, e mostrar a autonomia do movimento estudantil combativo que constituímos e construímos, o compromisso de uma juventude disposta a lutar por seus direitos e por uma sociedade igualitária, sem temer consequência alguma. E a luta só está começando, temos que garantir a autonomia dos moradores na casa, a agilização do processo de construção do novo bloco, com mais 36 vagas, que já tem verba disponibilizada, além da garantia de distribuição das 25 bolsas permanência no valor de 300 reais para cada campi do CESNORS, conquistadas durante a ocupação da reitoria, em setembro deste ano. A LUTA não para galera, se nessa ocupação lutamos pelos direitos estudantis, em nossas profissões devemos lutar pelos direitos igualitários da sociedade, e fazer justiça social enquanto profissionais, trabalhar a serviço do real desenvolvimento da nossa nação e lutando por qualquer direito que nos é negado. Saudações a quem tem coragem!

Por Vinícius Jean Barth, acadêmico de Engenharia Florestal, Coordenador de Políticas Educacionais e Assistência Estudantil do DCE UFSM- Em Frente, Coordenação Regional da Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal, Comissão organizadora do II Encontro Regional de Agroecologia Sul, representante discente do CEPE (Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão) e morador e representante da CEU IV no conselho de moradia da UFSM.

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