Contra a violência, mulheres realizam ‘Marcha das Vadias’ em Manaus

Marcha das Vadias Manaus

Evento foi realizado no Parque das Bilhares e teve baixa adesão. Mas novos eventos virão, de acordo com as organizadoras.

O movimento nacional ‘Marcha das Vadias’ chegou a Manaus neste sábado. O movimento tem a intenção de protestar contra a violência contra as mulheres, tendo em vista o alto número de ocorrências desta natureza no País.

De acordo com as organizadoras, o nome, polêmico, surgiu por conta de um policial canadense. Ele afirmou que os inúmeros estupros só iriam acabar quando as mulheres parassem de se vestir como vadias. A revolta foi geral e o movimento ganhou força em vários países e chegou ao Brasil, tendo sua primeira edição em Manaus, neste sábado.

A concentração foi no Parque dos Bilhares, mas teve baixa adesão, principalmente por conta da pouca divulgação. As organizadoras garantiram que, em uma próxima oportunidade, vão fazer uma divulgação mais intensa para reunir um maior número de mulheres para protestar.

CARTA MANISFESTO DA MARCHA DAS VADIAS MANAUS

Manaus 03 De Dezembro 2011

Em Manaus, marchamos porque na tabela quantitativa, o Amazonas apresentou 185 tentativas de estupro, em 2009, e 333, em 2010. Dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP/AM) de 2011 confirmam o crescimento e indicam que a maioria das vítimas de violência sexual na capital amazonense, em 2011, são mulheres. As informações indicam que 524 vítimas são do sexo feminino. Só em julho, cerca de 53 crianças foram vítimas de estupro. De acordo com a estatística, de janeiro a agosto, foram 276 menores que passaram por este tipo de crime sexual. O número de crianças, afetadas pelos crimes, é seguido pelos jovens. A faixa etária de 12 a 17 anos foi protagonista de 33 casos de violência sexual este ano. De janeiro a agosto, foram 201 adolescentes afetados por abusos sexuais.Somando os valores das crianças e jovens com as demais faixas etárias, Manaus apresentou 616 vítimas de estupro registrados pela SSP/AM nos últimos oito meses.

Sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos; marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público de Manaus, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são violentadas ao longo desses caminhos.

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos. Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e estupradas por vários homens ao mesmo tempo durante a Ditadura Militar.

Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres.

SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade, destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres. Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…

Sobre mundosofismo

Somos educadores populares e acreditamos na teoria de educação freirena, este espaço se destina a comunicação popular nas mais variadas mídias e formas. Buscamos colaborar com a liberdade de expressão através da defesa absoluta da democratização da mídia, colaborando com causas e movimentos e seus protagonistas nas lutas em todas os meios inclusive através do ciberativismo em Rede Mundial de Computadores.
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